Fé e Democracia nas Igrejas Derrotam a Extrema Direita

A
interseção entre a política de extrema-direita e o extremismo religioso é frequentemente
denominada nos meios acadêmicos como "Ódio Sagrado". O resultado
desta eleição mostrou que a estrema direita no Brasil entrou nas igrejas com
força.
Isto representa
um fenômeno global crescente no qual a teologia, os símbolos e a identidade
cristãos são instrumentalizados para justificar o etnonacionalismo e a rebelião
contra o governo. O exemplo da Europa e Estados Unidos nos assusta.
Estudiosos,
teólogos e comentaristas culturais observam que movimentos políticos podem
instrumentalizar textos sagrados e crenças tradicionais, transformando
comunidades centradas na compaixão em campos de batalha ideológicos.
Há poucos
dias, o site do Instituto Humanitas Unisinos publicou o resumo de um debate de
sociólogos brasileiros sobre a disputa pelo sagrado na política brasileira, que
deve ser lido por eleitores, políticos de esquerda e direita, no sentido de
entender como o discurso cristão de compaixão de Cristo é transformado em
discriminações, violência e ódio.
As igrejas
cristãs, como fez Cristo, devem receber e abraçar todos os seres humanos,
mesmos que sejam ladrões, milicianos, criminosos, prostitutas e outros
pecadores, desde que estejam na busca dos valores do Evangelho e da compaixão e
não do ódio.
O Papa Leão
XIV afirmou, há poucos dias, que estas práticas da extrema direita “não
constitui uma expressão do cristianismo”. Para ele, “os valores do Evangelho
não são valores de ódio e divisão, mas de compreensão, compaixão e
acompanhamento."
No Inglaterra,
o bispo da igreja anglicana, Arun Arora, conclamou os cristãos a resgatarem a
bandeira e a sua fé das mãos da extrema direita, afirmando que ambos estavam
sendo profanados por pessoas que buscam dividir a nação.
Arora
afirmou, ainda, que os cristãos não devem ser "neutros diante da violência
e da injustiça. Como seguidores de Cristo, nosso dever é claro: desafiar
aqueles cujos lábios destilam injúrias e ódio, refutar a divisão e restaurar a
dignidade na construção do bem comum".
A eleição
deste domingo mostrou claramente a interseção entre religião e política de
extrema-direita, que envolve a manipulação política de tradições de fé para
justificar a exclusão, ressentimentos culturais e manobras de poder
nacionalistas.
Tanto a
direita quanto a esquerda no Brasil devem enfrentar a extrema direita vitoriosa
no país. O que importa não é o fato de ser de extrema direita, mas as práticas
de extrema direita voltadas para as discriminações, ódios e violências.
Como já foi
dito, esquerda e direita deste país não devem se render ao discurso moralista,
de extração bíblica, que visa destruir os avanços e valores de nossa frágil
democracia, com injúrias, ódio e violência para discriminar minorias, reduzir
os direitos de cidadania, através de deturpações fundamentalistas do Evangelho
de Cristo.
Pelos
resultados das eleições, com esmagadora vitória da extrema direita em cima da
esquerda e da própria direita de tradições democráticas e cristãs e pelas
notícias do New York Times, o discurso do “ódio sagrado” funcionou dentro das igrejas,
sobretudo das igrejas evangélicas e pentecostais.
Ainda pela
pesquisa divulgada pelo New York Times, esquerda e direita neste país precisam avançar
numa pauta socioeconômica de combate às políticas do mal e injustiças sociais, que
dão suporte ao discurso do “ódio sagrado”.
Sem avanços
nesta direção, os lábios que destilam injúrias, ódio e divisão continuaram com
uma teologia distorcida e tóxica, ameaçando nossa democracia dentro e fora das
igrejas, em nome do sagrado.
Por fim,
certos grupos de extrema-direita são anticristãos e o uso que fazem da
simbologia cristã é ultrajante. Justiça, igualdade, laços que nos unem — é isso
que buscamos como cristãos.
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